Estudo identifica surfactantes muito acima do limite legal, pH extremamente alcalino e possíveis impactos sobre a biodiversidade do Rio Paraopeba

O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba encaminhou ao Ministério Público de Minas Gerais um laudo técnico que aponta indícios de contaminação industrial no Rio Betim e possível relação com os episódios de espuma branca registrados recentemente no manancial. O documento foi elaborado pelo Centro de Inovação e Tecnologia do Senai Minas Gerais (CIT Senai) e analisou amostras de água do rio e de efluentes industriais coletadas durante o mês de junho.
Segundo o estudo, um dos resíduos analisados apresentou 567,94 miligramas por litro de surfactantes, substâncias presentes em detergentes, sabões e outros produtos de limpeza que favorecem a formação de espuma. O valor supera em 284 vezes o limite de 2 mg/L estabelecido pela legislação ambiental mineira.
Os episódios de espuma ocorreram em três momentos distintos. O primeiro foi registrado em 30 de maio, na divisa entre Betim, Juatuba e São Joaquim de Bicas. Em 8 de junho, o material voltou a ser encontrado no bairro Aroeiras, próximo à BR-262. O terceiro caso ocorreu em 12 de junho, na foz do Rio Betim, onde suas águas desembocam no Rio Paraopeba.
De acordo com o CBH Paraopeba, o laudo foi produzido para auxiliar as investigações sobre a possível origem da contaminação e embasar eventuais providências administrativas, civis e criminais. O comitê ressaltou que a preocupação aumenta porque o Rio Betim é afluente do Paraopeba, que integra a bacia do Rio São Francisco, responsável pelo abastecimento e pelo equilíbrio ambiental de diversas regiões do país.
Além da alta concentração de surfactantes, os pesquisadores identificaram no mesmo efluente pH de 13,04, índice considerado extremamente alcalino e capaz de causar danos severos à vida aquática. Também foi registrada concentração de 2.563 mg/L de sódio, muito acima dos níveis normalmente encontrados no Rio Betim, que variam entre 34 e 36 mg/L nos trechos analisados.
Os testes de ecotoxicidade realizados durante o estudo chamaram atenção pelo potencial de impacto ambiental. Segundo o documento, mesmo diluído a 0,2%, o efluente provocou a morte de todos os organismos utilizados nos ensaios em até 24 horas. Esse tipo de teste é utilizado para avaliar a capacidade de uma substância causar danos à fauna aquática e costuma ser um importante indicador de contaminação ambiental.
O laudo também apontou alterações significativas na qualidade da água após o ponto de lançamento dos efluentes. Os pesquisadores observaram que a água deixaria de ser considerada não tóxica e passaria a apresentar toxicidade crônica, condição que pode comprometer o crescimento, a reprodução e a sobrevivência de organismos ao longo do tempo.
Outro resultado considerado preocupante foi a redução de 83% da clorofila, pigmento presente em algas microscópicas responsáveis pela produção de matéria orgânica na base da cadeia alimentar aquática. Também foi constatada queda de 84% no zooplâncton, conjunto de pequenos organismos que serve de alimento para peixes e outras espécies. Para os especialistas, esses indicadores sugerem um possível desequilíbrio ecológico no Rio Betim e no trecho do Paraopeba que recebe suas águas.
O comitê reforçou que o estudo aponta indícios de contaminação e que a identificação da origem do efluente e de eventuais responsáveis dependerá da continuidade das investigações pelos órgãos ambientais e pelo Ministério Público.







